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Opinião

Ranking das escolas: o privado não vende ensino, vende companhia

Os rankings comparam públicos diferentes, não escolas diferentes. E cada família que foge da escola pública tem razão, mas, somadas, estão a separar as crianças do país por classe social.

Todos os anos, por esta altura, cumpre-se o mesmo ritual. Sai o ranking das escolas, os colégios privados ocupam o topo da tabela, a primeira escola pública aparece lá para trás (este ano, em 38.º lugar) e o país divide-se entre quem vê nisto a prova de que o privado ensina melhor e quem vê a prova de que o ranking está viciado.

Discute-se muito o que os números dizem. Discute-se pouco o que as famílias estão, de facto, a comprar.

E o que muitas compram não é ensino. É companhia.

O que se paga na propina

Quando uma família com pais licenciados, bons rendimentos e uma vida organizada escolhe um colégio, raramente o faz porque acredita que ali se ensina a física de outra maneira.

Fa-lo porque quer garantir que o filho passa o dia com crianças parecidas com ele: filhos de pais que leem, que acompanham os trabalhos de casa, que vão às reuniões e que, quando a nota não chega, pagam explicações.

Compra-se um ambiente. Compra-se, sobretudo, a ausência de um certo “caos” que se associa, com ou sem razão, à escola pública.

Sou professor numa escola pública e não vou fingir que esse receio não tem fundamento. Na minha sala há alunos que chegaram ao país há meses e ainda estão a aprender a língua, alunos com necessidades específicas, alunos para quem a escola é o sítio mais estável da semana.

Ensinar nestas turmas é mais difícil. Percebo perfeitamente o pai que olha para isto e prefere poupar o filho.

O problema é que o ranking mete tudo no mesmo saco. Os resultados de um colégio somam o trabalho dos professores, a escolaridade dos pais, os livros que havia em casa e as horas de explicação pagas fora da escola. Nada disto está discriminado na tabela. Tudo isto aparece na média.

Cada família tem razão. O país, não

E aqui chegamos à parte desconfortável, que não é sobre o privado. É sobre todos nós.

Cada família que sai da escola pública toma uma decisão racional. Ninguém a pode censurar por querer o melhor para o filho. Mas quando milhares de famílias tomam a mesma decisão racional, o resultado coletivo é péssimo.

A escola pública não perde apenas alunos; perde precisamente os alunos e os pais que mais a puxavam para cima. Perde o encarregado de educação que exigia, que reclamava, que se candidatava à associação de pais. Perde o colega de carteira que obrigava a turma a ir mais longe. Quem fica é quem não pode escolher.

Isso torna a escola pública um pouco mais parecida com aquilo de que os pais fugiam. O que, por sua vez, convence mais umas quantas famílias a fugir também. É um círculo vicioso, e o ranking, apresentado todos os anos como simples informação, funciona na prática como o seu melhor folheto publicitário.

Cada família que sai tem razão. Somadas, estão a separar as crianças do país por classe social.

Uma escola de quem não pode escolher

A escola pública portuguesa foi, durante décadas, o lugar onde o filho do médico e o filho da empregada de limpeza se sentavam na mesma sala. Era imperfeita, mas era um dos poucos sítios onde o país inteiro se encontrava.

Se continuarmos por este caminho, vamos ter duas escolas: uma para quem pode pagar a companhia certa e outra para todos os outros. E nenhum ranking vai medir o que se perde com isso.

Não defendo que se acabe com o ensino privado, nem que se culpem os pais que o escolhem. Defendo que se diga com clareza o que os rankings escondem: que comparam públicos diferentes, não escolas diferentes.

E defendo que a pergunta certa não é “porque é que as escolas públicas ficam atrás?”, mas sim “o que é que a escola pública precisa para que um pai com escolha não tenha medo de lá deixar o filho?”.

Enquanto não respondermos a essa pergunta, vamos continuar, todos os outubros, a discutir quem ganhou um campeonato em que as equipas nunca partiram do mesmo sítio.

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