Ranking das escolas: o que tem a Alves Martins de Viseu que a D. Manuel I de Beja não tem?
Viseu não tem colégios privados, mas tem uma escola pública que faz dois terços das provas da cidade e fica 1,7 valores acima do esperado. Em Beja, com as mesmas famílias, a escola de referência fica no zero.
Viseu é um caso curioso nos rankings. Não tem colégios privados a disputar alunos com a escola pública e, mesmo assim, as suas escolas ficam muito acima do que seria de esperar. Ou, mais exatamente, uma delas fica.
Quando se olha com atenção, o “milagre de Viseu” tem nome: Escola Secundária Alves Martins. E a pergunta interessante não é porque é que Viseu tem bons resultados. É o que tem a Alves Martins que as outras escolas de referência do interior não têm.
Uma cidade, três escolas, uma escola
| Escola | Provas | Escolaridade pais / mães | Face ao esperado |
|---|---|---|---|
| Alves Martins | 1191 (63%) | 14,1 / 13,9 anos | +1,70 |
| Emídio Navarro | 425 (22%) | 11,4 / 12,0 anos | +0,07 |
| Viriato | 284 (15%) | 10,5 / 12,0 anos | +0,29 |
A Alves Martins faz quase dois terços de todas as provas de exame do concelho. Os pais dos seus alunos estão entre os mais escolarizados do país: no ranking, só 4% das escolas públicas os têm mais escolarizados.
E, mesmo descontando esse contexto privilegiado, os alunos ficam 1,7 valores acima do que seria de esperar. As outras duas escolas da cidade ficam exatamente onde o seu contexto faz prever. Todo o “excesso” de Viseu está numa única escola.
A explicação mais óbvia é a de um filtro: numa cidade de tamanho médio, a escola com melhor reputação acaba por reunir os filhos das famílias mais escolarizadas. A lei manda matricular pela residência, mas qualquer professor sabe como isso se contorna, com a morada dos avós, a do local de trabalho dos pais ou a escolha de uma opção que só uma escola oferece.
Os quase três anos de diferença na escolaridade dos pais entre a Alves Martins e a Viriato, em escolas a poucos quilómetros uma da outra, mostram que essa separação existe. Viseu não tem colégios de elite. Tem uma escola pública que faz esse papel.
Só que esta explicação, sozinha, não chega. E é aí que o caso fica interessante.
O teste das outras capitais de distrito
Fui ver as escolas das outras capitais de distrito do interior: Vila Real, Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja. Todas têm hospital, ensino superior e serviços públicos que atraem quadros qualificados. Todas têm uma escola secundária “principal”. E todas mostram parte do padrão de Viseu, mas nunca o padrão completo.
Em Bragança e Portalegre, uma única escola faz ainda mais provas da cidade do que a Alves Martins (66% e 68%), e fica no esperado. Em Vila Real e em Beja, há uma separação social entre escolas quase tão grande como a de Viseu. E nenhuma escola principal destas cidades passa de seis décimas acima do esperado. A Alves Martins está em 1,7.
O contraste mais revelador é com Beja. A Escola Secundária D. Manuel I é a escola de referência da cidade, faz 58% das provas e recebe filhos de famílias quase tão escolarizadas como as da Alves Martins: 13,5 anos de escolaridade nos pais e 13,7 nas mães, contra 14,1 e 13,9. O modelo do ranking esperava das duas exatamente a mesma média: 12,21. A D. Manuel I obteve 12,20. A Alves Martins, 13,91.
Mesmo estatuto, famílias parecidas, mesma média esperada. Quase dois valores de diferença.
Ou seja, o filtro social existe noutras cidades e não produz o resultado de Viseu. Juntar os filhos dos pais mais escolarizados numa escola não chega para explicar a Alves Martins.
Onde está a diferença
| Disciplina | Alves Martins | D. Manuel I |
|---|---|---|
| Português | 14,23 | 13,20 |
| Matemática A | 14,03 | 10,78 |
| Biologia e Geologia | 15,03 | 12,23 |
| Física e Química | 14,33 | 12,63 |
| Economia | 14,25 | 11,32 |
| História A | 12,39 | 9,80 |
| Geografia | 10,10 | 12,32 |
| Filosofia | 12,08 | 12,37 |
A diferença entre as duas escolas está quase toda na Matemática e nas ciências. No Português, separa-as um valor; na Matemática, mais de três. Em Geografia, é Beja que fica à frente, e em Filosofia estão empatadas.
Isto diz alguma coisa. A Matemática e as ciências são as disciplinas mais cumulativas: o que o aluno consegue no 12.º ano depende muito do que trouxe do básico. Se a Alves Martins recebe alunos que já chegam fortes, é exatamente aqui que a vantagem apareceria.
Mas também é aqui que um bom departamento faz mais diferença. Os números públicos não permitem separar as duas coisas.
Há uma suspeita que os dados permitem afastar: a de notas internas inflacionadas. Acontece o contrário. Comparada com o resto do país, a Alves Martins fica em 50.º lugar no exame de Matemática e em 193.º nas notas internas da mesma disciplina. Em Física e Química, 42.º no exame e 171.º nas internas.
A escola avalia com mais rigor do que os resultados dos seus alunos justificariam. Na D. Manuel I, pelo contrário, a nota interna de Matemática (14,26) fica três valores e meio acima do exame (10,78), e a de História A mais de quatro.
E há a escala. A Alves Martins fez 449 provas de Português e 229 de Matemática. Manter uma média de 14 a Matemática com mais de duzentos alunos é muito mais difícil do que com trinta.
Não estamos a falar de uma pequena elite escolhida a dedo, como em alguns colégios do topo da tabela. Estamos a falar de uma escola grande, que recebe a maioria dos alunos de exame de uma cidade de cem mil habitantes, quase o dobro de qualquer outra destas capitais de distrito.
A pergunta que fica
O mais provável é que a Alves Martins seja as duas coisas ao mesmo tempo: uma escola que atrai os alunos mais ambiciosos da cidade, e talvez dos concelhos à volta, e uma escola que os prepara bem, sobretudo nas disciplinas em que isso mais conta.
O ranking mede a escolaridade dos pais, mas não mede a ambição dos alunos, as notas com que chegam ao 10.º ano, nem de onde vêm.
Por isso deixo a pergunta a quem conhece a escola por dentro. Como se entra na Alves Martins? Quantos alunos vêm de fora da área? Que diferença faz o departamento de Matemática e Ciências Experimentais?
Se a resposta for sobretudo “escolhemos bem”, Viseu mostra que a separação social não precisa de colégios privados para acontecer. Se for sobretudo “ensinamos bem”, há escolas de Beja a Bragança com muito a aprender. Em qualquer dos casos, vale a pena saber.