Ranking das escolas: a escola pública não se pode esconder atrás do contexto
Há escolas públicas com alunos de famílias praticamente iguais e quatro valores de diferença nos exames. O contexto explica muito, mas não explica tudo.
No meu último texto escrevi que os rankings comparam públicos diferentes, não escolas diferentes. Continuo a pensar o mesmo.
Mas há uma conclusão que muitos de nós, professores da escola pública, tiramos depressa demais dessa ideia: a de que, se o problema é o contexto, então os resultados não são connosco. Os números deste ano desmentem essa conclusão. E desmentem-na com nomes.
Escolas gémeas, resultados opostos
O Ranking de Superação, do PÚBLICO e da Católica Porto Business School, publica para cada escola a escolaridade média dos pais e das mães dos alunos e a percentagem de alunos sem apoio da Ação Social Escolar.
Com esses dados é possível encontrar escolas praticamente gémeas: mesmo tipo de famílias, mesmo nível de pobreza. Fui procurá-las entre as escolas públicas com mais de 60 provas realizadas. Encontrei 66 pares de escolas com contextos quase iguais e uma diferença de mais de dois valores na média dos exames.
Alguns exemplos:
| Escola | Escolaridade pais / mães | Sem ASE | Esperado | Obtido |
|---|---|---|---|---|
| Sec. Arquitecto Oliveira Ferreira (Gaia) | 9,1 / 10,3 anos | 70% | 11,12 | 12,56 |
| Sec. José Cardoso Pires (Loures) | 9,0 / 10,1 anos | 69% | 11,25 | 8,00 |
| Sec. de Vouzela | 8,5 / 10,4 anos | 73% | 11,06 | 13,66 |
| EBS Francisco Simões (Almada) | 8,8 / 10,7 anos | 76% | 11,54 | 9,73 |
| EBS Coronado e Castro (Trofa) | 8,9 / 10,3 anos | 75% | 11,17 | 13,02 |
| Sec. Seomara da Costa Primo (Amadora) | 9,2 / 10,4 anos | 71% | 11,30 | 9,44 |
Leia-se a tabela aos pares. A Secundária Arquitecto Oliveira Ferreira, em Gaia, e a Secundária José Cardoso Pires, em Loures, recebem alunos de famílias praticamente iguais. O modelo do ranking esperava das duas quase a mesma média. Uma ficou um valor e meio acima; a outra, mais de três valores abaixo.
Separa-as uma distância de 4,6 valores. A Secundária de Vouzela, a escola que mais superou o esperado em todo o país, tem uma gémea em Almada, a Francisco Simões, que ficou quase quatro valores atrás.
Mesmas famílias, mesma pobreza, quatro valores de diferença. A isto já não se pode chamar contexto.
E não são casos isolados. Das 138 escolas públicas que o ranking classifica como de contexto desfavorável, 73 ficaram acima do que era esperado. Metade das 50 escolas que mais superaram as expectativas no país são, precisamente, escolas de contexto desfavorável.
Ter alunos pobres não condena uma escola a maus resultados. Muitas escolas públicas provam-no todos os anos.
O que separa as gémeas
Se as famílias são iguais, a diferença está dentro da escola. Os mesmos dados dão pistas. Entre as 50 escolas públicas que mais ficaram aquém do esperado, a taxa média de retenção no 10.º ano é de 18,6%; entre as 50 que mais superaram, é de 7,1%.
Na José Cardoso Pires, as retenções foram de 33%, 35% e 53% nos três anos do secundário. Na sua gémea de Gaia, foram de 2%, 0% e 0%. Duas escolas com os mesmos alunos e maneiras completamente diferentes de lidar com eles.
É aqui que nós, professores e direções, temos de nos olhar ao espelho. A forma como se organizam as turmas, como se acompanha quem fica para trás, como se trabalha em equipa, como se prepara para os exames sem desistir de ninguém: tudo isto é escolha nossa.
E as escolhas têm consequências. Usar o contexto como explicação para tudo é uma forma confortável de nunca perguntar o que estamos a fazer de diferente da escola do lado.
Mas há um contexto que não vem de casa
Seria desonesto parar aqui, porque os dados mostram mais uma coisa. As escolas que ficam muito abaixo do esperado não estão espalhadas pelo país: 24 das 50 piores são da Área Metropolitana de Lisboa, que tem apenas uma em cada cinco escolas públicas do ranking. No topo da tabela da superação, há uma.
E há outro número que as distingue: nas 50 escolas que mais superaram o esperado, 84% dos professores são dos quadros; nas 50 que mais ficaram aquém, são 73,5%. Na José Cardoso Pires, são 69%.
Ou seja, parte do que separa as gémeas não é o contexto das famílias, é o contexto dos professores. Uma escola onde todos os anos chegam docentes novos, colocados longe de casa e a contar os dias para sair, não consegue construir o trabalho de equipa que faz a diferença.
Isso não se resolve com mais exigência aos diretores. Resolve-se com políticas que fixem professores onde eles fazem mais falta, e o próprio ministro já admitiu que o que existe “não chega”.
Duas responsabilidades, não uma
O contexto explica muito, mas não explica tudo. Os pares de escolas gémeas mostram que, com os mesmos alunos, há escolas públicas que fazem muito mais do que outras, e que essa diferença também depende de nós.
Ao mesmo tempo, mostram que há escolas a quem falta aquilo de que todas as boas escolas precisam: professores que ficam.
A escola pública não se pode esconder atrás do contexto. Mas o Estado também não se pode esconder atrás das escolas.